Passos na neve de quem sempre andou por ali...
O mundo ruiu sobre mim...pelo ter de deixar partir a minha velha! A minha esperança em mantê-la ali sob a minha asa, durante mais e mais anos tinha -se desvanecido...
Tinha-se perdido por entre sentimentos perversos de a manter num lugar frio e sombrio, só porque eu queria...só porque sou egoísta ao ponto de desejar que não partisse...
Mas partiu...Partiu numa manhã fria, muito fria...em que o Mundo parecia querer despedir-se em grande...
Chegamos a uma aldeia...que era a sua...numa terra que dá pelo nome de Mosteiro Sra das Preces...perdida pelo meio de Terras e Terras, para receber o seu corpo vindo de Abrantes...terra de ninguém...preparados para fazer, ao milímetro, tudo o que ela desejava que fizéssemos, e era isso que me mantinha activa e capaz de estar ali!
Numa pequena e singela capela de 1500 e troca o passo...lá estávamos nós para recebe-la e não podia ser mais perfeito...o frio gelava-me até aos ossos...mas não fazia mal..chegou com apenas um homem, num carro funerário e lá estávamos nós, os netos e a neta adoptiva, o genro, de quem falava como um filho para sermos nós a preparar tudo como queria, a coloca-la onde queria, a virar bancos...preparar tudo para receber os seus da terra! Foi talvez um dos momentos mais bonitos, mais marcantes e que serão guardados dentro de mim assim como a minha homenagem...
Estar ali com quem amo, lado a lado, partilhando o mais profundo dos sentimentos foi um momento de paz interior indescritivel...
Toda a restante noite foi apenas ver que ali dentro daquela capela, que tanto a animou ver reconstruída, era recebida agora pelos seus da terra, sobrinhos, primas, família...os que como ela ou tinham ido e voltado à terra ou tinham ficado por lá a guardar a terra, sua pertença!
A Terra era sua pertença, agora para nós fica-nos como uma terra que era sua e de nossa tem pouco, mas tem muitas vivências com ela e isso basta-me...
A Noite foi assim...e para que tudo tivesse o seu momento de eternidade nevou como há mais de 30 anos não nevava, por estes lados...Um nevão que cobriu tudo de branco, que fez todos saírem da capela para, por alguns instantes, em silencio, e sem saberem, lhe prestarem a homenagem de uma vida de luta e persistencia, que agora era serenada pelo manto branco que cobriu tudo....
Um misto de lágrimas de paz, de " leva-a que já estou pronta!" e tristeza de ter de ser assim....assolou-me...
Foi bonito...foi o merecido...foi o que de mais belo tenho visto ultimamente, e foi tão bom que assim fosse...
Daí por diante continuamos o nosso caminho de deixa-la onde queria, ao pé de quem queria...e talvez também por sentir que era mais perto de nós...e na Cidade que a acolherá para trabalhar e viver por mais de 40 anos!!!
Afinal a terra do seu coração era aquela da capela pequena de pedra...mas a terra da sua vida terá sido Lisboa!
A minha velha era esta...e morreu...Tinha um nome...ou melhor tinha dois...Avó e
Emília...
Tema A Velhice, para Fábrica de Letras

Free que bom aceitas bem a morte de outras pessoas. Eu não aceito. A morte de alguém choca-me de tal maneira que mal consigo encarar a realidade. Nunca consegui ver uma pessoa conhecida morta, conhece-la a agir e vê-la ali estática é algo que não consigo encarar. Gostava de a ver como tu, pois a morte é real, mas como realidades é brutal. Beijinhos
ResponderEliminarUm acontecimento recente que decerto te marcou muito, mas sem esquecer que até na morte se pode esconder alguma beleza...
ResponderEliminarEste desafio está a ser muito dificil para mim. Ler sobre a saudade, sobre a perda, sobre as lembranças dos nossos que já se foram, torna-se pessoal quando se atinge uma determinada idade. Muito bonita esta homenagem, a avó Emilia havia de gostar muito.
ResponderEliminarBeijinhos
Sem dúvida que foi uma bela homenagem :)
ResponderEliminarbeijo com abraço...
Linda e fantástica esta tua abertura! Não é fácil falar de morte ou de perdas, mas tu fizeste-o de uma forma muito simples e bonita.
ResponderEliminarParabéns!
E daria os Parabéns à Avó Emília pela neta que tem!!
1 beijinho**